segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

 

Atestado de Incompetência



É como o processo «Casa Pia»: haverá alguém neste país que possa dizer que nunca tinha visto miúdos a prostituírem-se no Parque Eduardo VII ou nos Jerónimos?
Só que ninguém falava no assunto. Era como se as escâncaras e a vulgaridade com que toda a gente via crianças de 12 ou 13 anos a entrarem em carros de luxo tornassem a coisa normal e perfeitamente aceitável.

E então, de repente, bastou uma notícia num jornal e uma criança ser entrevistada numa televisão para toda a gente finalmente se indignar e ter uma palavra a dizer.
E, só então é que o Ministério Público e a Polícia Judiciária parece terem acordado para a realidade do país em que afinal vivem.

Do mesmo modo, toda a gente sabe que o futebol é uma indústria que há vinte ou trinta anos nos anda a impingir um produto podre e completamente estragado.
Basta assistirmos a meia dúzia de jogos para todos ficarmos com suspeitas sobre a venalidade dos árbitros, ou pelo menos com a certeza da sua incompetência, e com a impressão que aquilo que nos querem mostrar num campo de futebol não corresponde, nem de perto nem de longe, à realidade dos factos.
Quantas vezes tudo aquilo é viciado, falso, comprado e encomendado?

Depois apareceu o «Apito Dourado».
Mas haverá alguém neste país que possa dizer que, por um momento só que fosse, chegou a ter esperanças que o Ministério Público e a Polícia Judiciária chegassem a alguma conclusão, e tivessem engenho e arte para acabar sequer com a promiscuidade entre o futebol e a política ou os meios judiciais?

Alguma vez alguém achou sequer estranho que Pinto da Costa soubesse com antecedência que ia ser detido para interrogatório e que a sua casa ia ser revistada?
Alguém estranhou que Pinto da Costa se refugiasse na casa de um juiz na véspera de se apresentar no Tribunal para ser interrogado?
Alguém achou inverosímil que Pinto da Costa seja acusado de práticas típicas de polvo siciliano e de agressões encomendadas por 10.000 euros?

E alguém algum dia esperou que todo este caso, independentemente das implicações judiciais, algum dia viesse a ter consequências disciplinares no âmbito da Federação Portuguesa de Futebol ou da Liga?
Isso é que era bom!!!

Até que, de repente, e ao fim de quase três anos de «Apito Dourado» e de aturadas investigações que obviamente nunca deram em nada, foi preciso aparecer um livro de cordel publicado por uma «alternadeira» despeitada para toda a gente falar no caso.
E para o Ministério Público e a Polícia Judiciária acordarem e começarem a levar o assunto a sério.

Tão a sério, que o novo Procurador Geral da República, Pinto Monteiro, acabou de encarregar Maria José Morgado (elevada assim a uma espécie de «jóia da coroa» do Ministério Público), de «dirigir e coordenar a investigação de todos os inquéritos já instaurados ou a instaurar conexos com o processo “Apito Dourado”».

Mas será que a corporação do Ministério Público ao menos se apercebe que, ao fim de quase três anos de investigações e inquéritos infrutíferos, a nomeação de Maria José Morgado para a condução do caso «Apito Dourado» é uma bofetada, um pano encharcado, um autêntico atestado de incompetência que, de uma só vez, Pinto Monteiro passa a Souto Moura, a António Cluny, a Jorge Costa, a Cândida Almeida e a todo o Ministério Público no seu conjunto?...




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